República, castanha e história local: Marabá na primeira metade do século XX

A história da Primeira República brasileira é marcada por rupturas e continuidades no processo de transição do século XIX para o século XX. Nesse contexto, temas como a política republicana, o coronelismo, as desigualdades sociais e a pós-abolição ganham centralidade no ensino de História. Em geral, essas questões são abordadas a partir de uma narrativa mais ampla da história do Brasil, construída com base em processos gerais e fortemente influenciada pela historiografia produzida no eixo Sul-Sudeste. No entanto, ao voltarmos o olhar para a historiografia local, encontramos fontes significativas que permitem compreender a realidade brasileira a partir dos processos históricos vividos em Marabá.

Enquanto região que passou a ser efetivamente ocupada por grupos nãoindígenas a partir do final do século XIX, Marabá, em certa medida, nasceu junto com a República brasileira. Sua história reflete as influências dos processos históricos nacionais, ao mesmo tempo em que preserva singularidades próprias da história dessa parte da Amazônia. A presente seção temática reúne fontes relacionadas ao contexto histórico da cidade, principalmente da primeira metade do século XX. Nesse período, Marabá se consolidou como uma potência econômica regional em função do extrativismo da castanha-do-pará. Essa atividade se fortaleceu a partir da década de 1920 e permaneceu como um dos principais pilares da economia local até a década de 1980. Durante muito tempo, a castanha foi tratada como a principal característica da região, gerando uma variedade de fontes,especialmente jornais e fotografias, além de pesquisas dedicadas a esse processo histórico.

Inicialmente, essas fontes foram utilizadas sobretudo para compreender a história marabaense a partir de sua dimensão econômica. Atualmente, no entanto, reconhece-se que elas também possibilitam análises mais amplas sobre Marabá e o Brasil da primeira metade do século XX. Para além dos aspectos econômicos, as fontes desta seção revelam características relacionadas ao trabalho, à população e às relações sociais e políticas.

Entre os materiais selecionados, destaca-se, por exemplo, um álbum de vistas do Tocantins, com fotografias registradas em 1927, durante a visita do coronel Deodoro da Fonseca à cidade, como representante do governo paraense, após a enchente de 1926. Essas imagens, além de retratarem a elite política do período e contribuírem para reflexões sobre a permanência das práticas do coronelismo na esfera local, também apresentam registros do trabalho com a castanha, da navegação, das enchentes, das características da população e do espaço urbano.

Além do álbum fotográfico, a seção reúne matérias de jornais e folhetos de cordel que retratam aspectos do período da castanha, produzidos na década de 1920 e em outros momentos. Essas fontes possibilitam compreender esse período da história marabaense a partir de diferentes perspectivas, tanto econômicas quanto sociais. Assim, ao realizar a curadoria desta seção, o Arquivo Histórico Manoel Domingues espera que esse conjunto documental sirva como inspiração e recurso para que professores abordem a história local e a história do Brasil sob múltiplos olhares.

Imagem: Castanhal de Marabá, 1927. Acervo do AHMD.

Referências:

EMMI, Marília Ferreira. A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais. 2. ed. rev. e ampl. Belém: UFPA/NAEA, 1999.

SILVA, Adriane dos Prazeres. A propriedade privada e as terras de uso comum na Amazônia: os castanhais de serventia pública e a luta pelo direito de existir. Antíteses, Londrina, v. 18, n. 35, p. 137–161, jan./jun. 2025.

PETIT, Pere. Chão de promessas: elites políticas e transformações econômicas no estado do Pará pós-1964. Belém: Paka-Tatu, 2003.

Conheça os documentos originais preservados pelo arquivo histórico da Casa da Cultura.