Patrimônio e memória cultural e social

O patrimônio histórico e cultural constitui um pilar fundamental no que tange à formação da identidade, da memória social e da própria história de uma sociedade. Ele é compreendido como um conjunto de bens materiais e imateriais que, por carregarem valores simbólicos, históricos, culturais e sociais, representam processos históricos e experiências de vida construídas de forma coletiva ao longo do tempo.

A noção de patrimônio possui uma extensa trajetória histórica. Inicialmente, na Roma Antiga, o patrimônio estava ligado à ideia de herança, ou seja, a bens materiais que se acumulavam no âmbito familiar. Nesse período, não existia uma concepção de patrimônio coletivo e público, mas sim individual. A ideia de patrimônio coletivo surge na Idade Média, com a ascensão do cristianismo, quando a religião passa a valorizar os bens da aristocracia e seus elementos religiosos, atribuindo importância às relíquias e ao culto aos santos.

O conceito moderno de patrimônio emerge na França, no século XVIII, no contexto da Revolução Francesa, momento em que se estabelece uma nova ordem política baseada nos princípios da cidadania e da igualdade civil entre os cidadãos. Nesse cenário, o patrimônio ultrapassa o âmbito do privado e do religioso e passa a se relacionar com a ideia de nacionalidade e de bem coletivo. Segundo Poulot (2009), essa concepção está vinculada à construção da nacionalidade, sendo constituída por monumentos e bens materiais capazes de testemunhar o passado.

No Brasil, o patrimônio cultural contemporâneo passou a ser objeto de estudos sistemáticos a partir da década de 1920, em um contexto marcado pela atuação do Estado e por políticas voltadas à preservação cultural. A partir desse momento, intensificaram-se as iniciativas de proteção aos monumentos, artefatos e demais bens deixados por gerações passadas. A institucionalização da política de proteção ao patrimônio ocorreu em 13 de janeiro de 1937, com a criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio da Lei nº 378, órgão responsável por identificar, fiscalizar, restaurar e proteger os bens culturais da nação, atuando por meio de superintendências estaduais.

O patrimônio histórico pode ser categorizado como material e imaterial, categorias que dialogam entre si. O patrimônio material refere-se aos bens físicos, como prédios históricos, monumentos, objetos, sítios arqueológicos, documentos e obras de arte, entre outros. Já o patrimônio imaterial diz respeito a bens relacionados à oralidade, às práticas culturais e aos saberes tradicionais que atravessam gerações e podem ser recriados por comunidades e grupos, gerando sentimento de pertencimento, construção identitária e continuidade, de modo que permaneçam vivos no campo da memória.

Referências:

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, n. 10, 2012.

MEURER, Sabrina Patricia; CARDOSO, Sandra Magda Mattei. O significado do patrimônio histórico. In: ANAIS do 15º Encontro Científico Cultural Interinstitucional e 1º Encontro Internacional, 2017.

Conheça os documentos originais preservados pelo arquivo histórico da Casa da Cultura.

Os patrimônios históricos do município de Marabá, no Pará, refletem-se nos campos social, cultural e econômico da região. Como exemplos de patrimônio material, destacam-se o Palacete Augusto Dias, que abriga atualmente o Museu Municipal Francisco Coelho, o prédio da Biblioteca Municipal Orlando Lobo, que outrora funcionou como mercado municipal da cidade, e a Igreja São Félix de Valois. No âmbito do patrimônio imaterial, evidenciam-se a Festa do Divino Espírito Santo, o Círio de Marabá e o festejo junino.

O ensino de História articula os debates sobre patrimônio, identidade e memória, de modo que esses três conceitos se constituem como pilares fundamentais do processo de ensino aprendizagem. No entanto, trabalhar essas noções na educação básica nem sempre é simples, uma vez que podem parecer complexas e abstratas para crianças e adolescentes. Nesse sentido, abordá-las a partir da história local permite mobilizar elementos que fazem parte do cotidiano dos alunos, aproximando os conceitos de cenários, narrativas e manifestações com as quais eles interagem em diferentes espaços.

As lendas da cidade, como a Porca de Bobes, a Boiúna (cobra grande) e a Matinta Pereira, assim como as manifestações culturais relacionadas ao dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, são exemplos de expressões culturais que, junto aos patrimônios ateriais e imateriais de Marabá, oferecem importantes referências para a compreensão da memória e da cultura local. Esses registros possibilitam refletir sobre patrimônio, identidade e memória a partir de diferentes perspectivas e olhares.

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Justamente por isso, este eixo não se limita ao debate sobre patrimônio, mas também dialoga com a memória e a cultura. Ele reúne fotografias históricas, folhetos de cordel e recortes de jornais que abrem espaço para discussões sobre a construção da memória e da cultura marabaense, abordando temas como os conflitos por terra, a presença das populações indígenas, as manifestações religiosas, as expressões culturais e as transformações do espaço urbano.

O presente eixo tem como objetivo organizar e disponibilizar informações, registros e referências sobre esses temas, de modo a subsidiar o trabalho pedagógico de professores(as), estudantes, pesquisadores(as) e da comunidade em geral. Ao aproximar fontes diretas e indiretas relacionadas ao patrimônio, à memória e à identidade municipal, busca-se promover a educação patrimonial, valorizar a memória local e contribuir para a formação cidadã e crítica de diferentes sujeitos, fortalecendo, assim, o vínculo com a história, o território e a cultura.

Imagem: Velha Marabá, enchente de 1980. Acervo do AHMD.